Está um “calor dos diabos”, pelas próprias palavras do Tizé, e a sensação de frescura que a imperial lhe oferece é apenas momentânea, de tal forma que o inevitável acontece:
─ Oh Mário… traz aí outra imperial, que esta já foi!
Enquanto o Mário se dirige à mesa do Tizé, na pequena e improvisada esplanada do Gaivota, pergunta para a mesa ao lado se precisa de mais alguma coisa.
─ Não, não obrigado! ─ Responde o jovem.
De imediato o Tizé dirige o olhar para essa mesa com alguma surpresa, porque não tinha notado a presença de alguém nas imediações, e a esplanada não é propriamente grande! Mas a sua surpresa é ainda maior quando repara que o jovem o olha directamente nos olhos, apresentando uma expressão mista de surpresa e reflexão. Tizé logo reage como qualquer um de nós: desvia o olhar e finge que está a olhar para outra coisa qualquer.
─ Deve ter sido coincidência ─ pensa Tizé.
Passam-se uns minutos e o Mário continua sem trazer a imperial. Tizé elabora então um plano, como nós muitas vezes o fazemos no nosso dia-a-dia sem sequer tomarmos consciência disso: “Será que ele ainda está a olhar para mim? Vou olhar para o relógio, para o caso de ele estar a olhar para mim, e assim pareço que estou impaciente. Então vou tentar olhar para o Mário lá dentro, e pelo caminho olho para a mesa ao lado, e assim sei se ele ainda está a olhar para mim ou não!”.
E assim aconteceu! Ele ainda estava a olhar para o Tizé!
Tizé aproveita a janela de oportunidade do seu brilhante (!) plano e levanta-se passados uns segundos, dizendo em voz alta:
─ Mas onde anda o Mário? ─ E dirige-se para o balcão interior do Gaivota.
─ OH Tizé, não te preocupes que não me esqueci, só tive um problemazito ali na cozinha. Já lá ta levo!
─ Sim, sim. O que te queria perguntar ─ e enquanto diz isto debruça-se sobre o balcão e começa a sussurrar ─ sabes quem é aquele gajo ali sentado ao meu lado?
─ Ali na esplanada? ─ Pergunta o Mário algo espantado
─ Sim claro, onde é que havia de ser? Olha lá… tas a ver? Ele continua a olhar para a minha mesa e para os papéis que lá tenho.
─ É o Quinzito! O miúdo ali dos Alves. Já não o via há anos, desde que foi para a Universidade. Ele está muito diferente, mas conheço-o sim! Não te lembras dele?
─ Só muito vagamente. Mas o que é que ele quererá?
─ Vai lá e pergunta-lhe! ─ Diz o Mário algo rispidamente, uma vez que estava com problemas no café, e não tinha tempo para as questões do Tizé.
─ Posso ajudar-te? ─ Diz o Tizé junto ao Quinzito na esplanada, transparecendo um pouco de irritação.
Quinzito percebe o tom na voz de Tizé e logo passa a explicar o seu comportamento:
─ Desculpe se o estava a assustar, mas estava muito curioso. Apenas curiosidade, acredite! Confesso-lhe que não estava nada à espera de ver aqui alguém a ler e a tentar compreender o funcionamento de um microondas!!
E continua ainda o Quinzito ─ Não sei se se lembra de mim. Eu sou…
Quim (nome pelo qual é agora conhecido) explica então ao Tizé que apesar de ser um “filho da terra”, desde há vários anos que se afastou da terra dos seus pais, por razões profissionais. E por essas mesmas razões, sentiu tão grande curiosidade pelo comportamento do Tizé. Quim continua a explicar que recentemente havia sido convidado, por uma rádio de Lisboa, a moderar um programa de ciência, que trouxesse algo de inovador ao panorama nacional, e ao mesmo tempo que aproximasse o cidadão comum destes temas. No entanto, apesar da sua formação jornalística, não conseguia imaginar como corresponder às expectativas. Mas quando hoje se sentou na esplanada do Gaivota e se deparou com uma pessoa de idade a ler textos de ciência, tentando compreende-los, apesar de não ser da área, forneceu-lhe uma série de ideias para o seu programa.
Logo Tizé interrompe ─ Mas como é que sabe que não sou da área?
─ Bem…pelo modo como murmurava, referindo que não percebia nada do que estava a ler! ─ Responde o Quim.
Os dois homens acabam por se sentar à mesma mesa, continuando a conversar.
Tizé explica, por sua vez, que o seu fogão se avariou, e que para aquecer a sua comida utilizou pela primeira vez um microondas, que o seu filho Alexandre lhe tinha oferecido há alguns anos. Nunca o tinha utilizado por o considerar desnecessário e além disso, os rumores sobre os perigos para a saúde não o deixavam confiante.
Mas como se viu agora obrigado a utilizá-lo, sentiu curiosidade em saber como é possível aquecer comida sem a presença de chama alguma.
Após algumas horas, e mais umas imperiais, discutindo acerca de microondas, das rotinas do Tizé (Tizé não revela o carácter terapêutico destas), da importância da ciência no dia a dia das pessoas, e do papel da comunicação social, Quim faz uma pergunta ao Tizé:
─ Deixe-me perguntar-lhe isto. Gostava de participar num programa de rádio semanal sobre ciência?
─ Eu!? Mas como disse, eu não percebo nada disso. O que faria eu lá? Isso são coisas para gente importante, não para mim. ─ Responde o Tizé.
─ Bem pelo contrário! A minha ideia é unir o cidadão “comum” com estes programas. Diga-me, já alguma vez ouviu ou viu programas semelhantes na comunicação social?
─ Bem…nem por isso. Porquê?
─ Ora aí está! A ideia será a de aproximar as pessoas destes programas. Gostava de partir do dia a dia, problematizar, e depois mostrar como a ciência nos serve a todos e não apenas a alguns. O programa não servirá para discutir temas de formas incompreensíveis para a maior parte do público.
Após uma pequena pausa…
─ O que pretendo mesmo é colocar em “confronto” uma linguagem do quotidiano com uma linguagem académica.
─ Mas e se ninguém se entender? ─ Pergunta o Tizé.
─ Existe esse risco, mas poderá surgir um meio-termo entre o rigor académico e o pragmatismo quotidiano. Podemos até não conseguir isto, mas se colocarmos muitas pessoas a discutir ciência já alcançamos o objectivo!
─ E o que espera que eu faça? ─ Pergunta o Tizé.
A pergunta surpreende o Quim, porque esperava que Tizé perguntasse primeiro o que podia ganhar com isso.
─ Bem…estaria comigo todas as sextas no estúdio, e discutiríamos um tema previamente seleccionado por nós, com um outro convidado sempre diferente. Este terceiro convidado representaria a vertente académica relativamente ao tema escolhido. Além disso, as pessoas podiam também ligar para nós a dar a sua opinião.
E continua o Quim ─ Mas o que é importante será a forma como discutiremos os temas. A discussão será o mais próxima possível de uma conversa de café, ou seja, animada, com interrupções, e com piada, para que o público se reveja em nós e nos temas.
─ Mas para que rádio é? ─ Pergunta o Tizé.
Face à pergunta de Tizé, Quim explica que se trata de uma rádio desconhecida, muito jovem e integrada num novo projecto de comunicação social. Trata-se de uma rádio sem cobertura nacional, mas que utiliza a internet como complemento, incorporando cultura, desporto, ciência, moda, gastronomia entre outros assuntos, todos discutidos de forma aberta e sem rodeios.
Neste ponto da conversa, Quim resolve ser ele próprio a introduzir o assunto financeiro, para que tudo seja ponderado:
─ Mas as questões financeiras não são boas. O máximo que posso fazer, no caso de aceitar fazer isto comigo, é pagar-lhe as deslocações!
Mas para surpresa de Quim, a resposta de Tizé é pronta:
─ Isso não tem problema. Para o ano peço reforma antecipada, devido a ter trabalhado no estrangeiro, por isso tenho algum dinheiro para viver e tempo não me falta. O problema que vejo é que isso é uma coisa para malta nova, e eles querem lá ouvir um velho como eu!
─ Aí é que se engana. É precisamente uma voz do povo como a sua, que poderá trazer um ar de frescura ao programa. ─ Replica o Quim que continua:
─ Vamos fazer assim, para a próxima semana vai ter comigo a esta morada aqui, e vamos gravar um programa piloto para vermos como fica.
─ Mas, mas… ─ murmura o Tizé.
─ Não se preocupe, a sério. Quanto mais natural soar, melhor. O resto faço eu.
─ E vai ser sobre o quê? ─ Pergunta Tizé
─ Pois, temos de decidir o tema. Dê-me o seu… ─ Quim ia pedir o e-mail ao Tizé, mas hesita para não causar embaraços ─ …telefone, que eu dou-lhe o meu cartão, e contactamo-nos para combinar o tema.
Tizé e Quim despedem-se com um até breve. Quando Quim abandona o Gaivota, deixa Tizé na sua mesa com uma expressão de certa incredulidade relativamente ao que tinha acabado de acontecer.
Nessa noite, Tizé sente-se diferente mas não consegue perceber a razão. Está relaxado e calmo, apesar de não ter escrito nada no seu caderno. Quando apaga a luz do seu quarto e surge aquele período de tempo até adormecermos realmente, em que estamos abandonados aos nossos pensamentos, Tizé apercebe-se: “Não fiz qualquer pergunta hoje. Que estranho!”.
Sem o compreender, com o convite para a rádio, Tizé encontrou forma de satisfazer a sua curiosidade de forma simplificada: as fontes de obtenção de respostas vêm agora até ele!
Tizé adormece pela primeira vez desde há bastante tempo, com um sorriso nos lábios!
Passam-se uns dias e Tizé, como sempre, está no Gaivota a ler o jornal quando recebe uma chamada:
─ Boa tarde Tizé, fala o Quim. Estou-lhe a ligar para saber se já considerou a minha proposta. Aqui na rádio todos gostaram da ideia de vir colaborar connosco.
Tizé ficou surpreendido porque na sua mente já tinha aceite, apesar de ainda não o ter feito oficialmente. Mas para não se mostrar demasiado ansioso responde:
─ Sim, estive a pensar e acho que vou aceitar o seu convite.
─ Muito bem ─ responde o Quim ─ mas temos já de mudar uma coisa…
Tizé pensa logo que algo correu mal, mas Quim continua a sua frase:
─ Temos é de nos deixar de tratar por você, e passar a tratar por tu, pode ser?
─ Sim, claro que sim ─ responde o Tizé.
─ Depois disso, queria perguntar-lhe se já pensou em algum tema para o programa.
─ Hummm…Não! Pensei que ia você…ou melhor…ias tu dizer o tema.
─ O tema pode ser qualquer coisa, Tizé. O que é que leu ou viu nestes dias?
─ Olha…estou neste momento a ler no jornal a polémica do TGV ─ responde o Tizé.
Quim de imediato percebe que esse poderá ser um bom tema e pergunta:
─ TGV? Aqueles comboios mais rápidos?
─ Sim, aqueles que estamos a decidir se construímos linhas ou não. ─ Responde o Tizé
─ Pois eu sei. Mas em que é que são diferentes esses comboios daqueles que temos? Pergunta o Quim para testar o Tizé.
─ Isso não sei. Devem ser melhores, não é?
─ Tizé, acabámos de encontrar o tema do nosso programa piloto. ─ Afirma concludentemente o Quim.
─ Mas, eu não sei nada sobre isso… ─ responde medrosamente o Tizé.
─ Tizé, repito, não se preocupe! Leia o que quiser sobre o tema, pense no que gostaria de saber, sem preocupações ou ansiedades, que na sexta vamos ver como corre.
─ Ok ─ Diz o Tizé, percebendo que não pode responder de outra forma.
─ Vemo-nos na sexta. Sabe o caminho até aqui? ─ Conclui o Quim
─ Sei. Mas a que horas?
─ Já me esquecia disso. ─ Diz o Quim ─ Gravamos às três da tarde, mas pode chegar antes do almoço, que almoça connosco. Até lá Tizé.
Tizé desliga a chamada, engole em seco, e diz:
─ Oh Mário, traz-me mais uma imperial!




