Tizé acorda no seu quarto frio. São seis horas da manhã e o inverno é rigoroso. A noção de que aquelas fracas paredes, cheias de fissuras, não permitem manter uma temperatura adequada é evidente, mas Tizé já se habituou – vive há trinta e dois anos neste quarto e há já seis que acorda sem companhia naquela cama, e nunca sentiu algo assim…. Não é isso que o perturba, não é isso que o “cola” aos cobertores, não é isso que o faz querer ficar sozinho.
Nas duas últimas semanas, tem sentido uma dificuldade tremenda em levantar-se de manhã, e os longos dias que se seguem não têm sido melhores. Passa o seu tempo a tentar escapar das pessoas e das suas habituais, mas agora tão perturbadoras, conversas (a D. Maria: “Já viu o tempo, vizinho?” ou, quando vai ao café Gaivota, o Mário: “Leste o jornal de hoje?”).
Mesmo os seus objectos, por mais antigos e familiares que sejam, o fazem recuar: o cobertor de penas dá-lhe arrepios, o candeeiro assusta-o, o rádio é como uma agulha a perfurar-lhe a cabeça e na cozinha nem consegue entrar… Tem vivido absolutamente isolado e a dormir. A dormir até ao limite do que é humanamente possível.
— Vamos lá ao parque, tenho comigo o tabuleiro, Tizé! — desafia o Zarolho, (companheiro de longa data do jogo das Damas), mas ao entrar de rompante na casa de Tizé suspende a fala, perante o homem que encontra. Os seus olhos verde azeitona transmitem desespero. As rugas dos seus cinquenta e nove invernos parecem agora verdadeiros cortes na cara. O bigode, antes digno e arranjado, está abandonado à sua sorte, e o cabelo preto e forte reflecte perfeitamente a quantidade de tempo que o Tizé passa a dormir.
— Cum carago pá, achas que vale a pena isto tudo por teres sido despedido?! Já mudaste de emprego tantas vezes… Para te dizer a verdade, nem quando morreu a Celestina há seis anos te vi assim – dispara finalmente o zarolho.
— Emprego?! Oh sacana, achas que o meu antigo emprego, tem alguma coisa a ver com isto?!” — responde Tizé – “Não percebo o que se passa comigo… Desde há duas semanas que tenho a minha cabeça a arder, sempre com dores; não tenho vontade de comer e o pior é que não sei porquê… – indignado, continua – Eu com esta idade, dois filhos no estrangeiro, e estou com medo de sair à rua?! Já viste que porra de homem sou eu? Dores de cabeça é para as mulheres, Zarolho…
Mas Zarolho não sabia o que responder. A relação dos dois sempre fora casual, e à volta de um tabuleiro de damas… Então teve uma ideia brilhante, como sempre tem quando não sabe o que fazer: “Vou mandar a minha mulher aqui! Ela há-de ter alguma ideia! Anda sempre com coisas desse tipo, por isso pode ser que te ajude”.
Tizé acedeu, pensando que pior não faria, mas completou em voz alta, numa altura em que o Zarolho se encontrava à saída: “Zarolho, olha lá! Nada de espalhar isto no Gaivota, ouviste?!”. Este já respondeu do outro lado da porta: “Está bem, nem uma palavra, descansa.”
Enquanto Tizé escorregava de novo para baixo dos lençóis, pensou: “Oh Celestina, que homem sou eu?!”.
Passadas duas horas, que ao Tizé pareceram um segundo, toca o telefone. Era a Carlota, mulher do zarolho:
— Então, que tens, Tizé?
— Sei lá, Carlota, parece que estou doido. Diz-me lá o que fazem vocês quando estão assim…
— Vocês quem, Tizé?
— As mulheres, carago! Então, porque achas que estou a falar contigo?!
— Pfff… Os homens são todos iguais, c’ um raio! Conta lá! Estás inquietado com quê?!
Tizé não conseguiu responder, porque também não sabia. A sua agressividade vinha exactamente da ânsia que sentia em obter pelo menos uma resposta. Pelo menos uma, de entre os milhares de perguntas que percorriam a sua cabeça, nestas últimas duas semanas.
— Oh Carlota, que posso fazer para limpar a cabeça?!
Passado um mês, um “novo” Tizé, sentado a uma mesa de canto do Café Gaivota, escrevia num pequeno caderno comprado no Jumbo: “…assim percebi que o vinho não é sumo de uva, porque senão não nos embebedávamos ao bebê-lo. Isto tem a ver com uns bichos, que não vemos, que produzem álcool quando o vinho está dentro dos pipos a crescer…”
[O processo de fermentação alcoólica, é realizado sob a acção de leveduras - microrganismos pertencentes ao reino Fungi no sistema de classificação dos organismos biológicos. Dentro deste reino agrupam-se seres vivos como os cogumelos ou os bolores que encontramos nos diversos alimentos. As leveduras degradam os açúcares (frutose e glicose) contidos na uva e libertam etanol e dióxido de carbono como subprodutos. O etanol é o liquido normalmente designado por álcool e o dióxido de carbono é um gás. E esta é a razão de o vinho parecer estar a ferver ou a crescer durante a fermentação].
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![]() caderno do Tizé |
O que aconteceu, entre a conversa com a Carlota, e este momento?
O Tizé passou algum tempo a “chás” e a fazer uma dieta especial por sugestão da D. Maria, mas os sintomas continuaram inalterados. Desorientado, chegou mesmo a visitar um curandeiro lá do bairro para lhe tirarem o mau-olhado, mas nada resultava.
Tizé não encontrava solução, porque procurava a cura apenas para os seus sintomas físicos (todo aquele cansaço, a falta de apetite, as alterações do sono…), quando estes verdadeiramente estavam relacionados com uma alteração psicológica [perturbação psicossomática - perturbação do estado físico com causas em perturbações psicológicas].
Assim, Tizé só descobriu o que lhe estava a acontecer quando iniciou consultas de psicologia no hospital. E conseguiu-o rapidamente, graças ao amigo Zarolho: a filha é casada com um médico de clínica geral nesse hospital. A verdade é que desde então foi melhorando a olhos vistos, porque, como todas as pessoas obsessivo-compulsivas, conseguiu descobrir um ritual capaz de lhe diminuir a ansiedade causada pela obsessão.
— Mas não devias prescrever alguns fármacos como clomipramina ou fluoxetina [aconselhados no tratamento de sintomas obsessivo-compulsivos], de modo a diminuir a necessidade do paciente em ritualizar?— pergunta o Roberto ao colega médico que acompanha o Tizé.
— Não lhe prescrevi nada, Roberto, porque a obsessão dele é obter respostas. Já viste?! Apenas respostas. Perante qualquer situação ou objecto, começa de imediato a fazer perguntas. E, acredita, pode ser completamente extenuante, para quem o ouve, a quantidade de perguntas que faz. Assemelha-se a uma criança de cinco anos no estádio intuitivo [estádio de desenvolvimento cognitivo de uma criança aproximadamente entre os 4 e os 7 anos, de acordo com as teorias desenvolvidas por Jean Piaget. Este estádio é mais conhecido como a "idade dos porquês"].
— Que interessante…
— O ritual que desenvolvemos em conjunto foi que, todos os dias, o paciente deve escrever num caderno uma resposta a uma qualquer pergunta que lhe surja. E essa resposta pode ser o mais simples possível. Isto para o paciente não viver obcecado nem gastar muito tempo do seu dia com isso. Se a situação se modificar, nessa altura, altera-se o tratamento… — e depois de uma pausa a reflectir, deixa escapar: “Sinceramente, Roberto…acho que todos devíamos ser um pouco mais como o Tizé, sabes?!…”.

