[Nota de autor: Todos os posts do blogue apresentam uma relativa continuidade na forma como é utilizada a vivência ficcional da personagem Tizé para a apresentação de informação científica.
Apesar disso, todos eles possuem a capacidade de serem consultados de forma independente e autónoma.]
Dão as doze badaladas da noite numa noite fria e chuvosa. Tizé está a ver televisão mas, apesar disso, está perfeitamente aborrecido. Tenta mudar de canal mas, ou encontra publicidade ou encontra telenovelas. E apesar de muitas pessoas consumirem avidamente telenovelas, negando sempre que o fazem, Tizé não é uma delas. Ou seja, não vê mesmo telenovelas.
Assim, deixa num canal onde está a dar anúncios, e tenta desfolhar um jornal. A palavra correcta é mesmo tentar, porque pouco depois está a dormir no seu sofá.
Tudo está calmo na sua casa, e as únicas luzes que se distinguem são a de um pequeno candeeiro sobre o sofá e a televisão. Tizé está estendido no sofá com o jornal sobre as suas pernas.
De repente após poucos minutos e sem qualquer motivo, Tizé sobressalta-se e o jornal cai para o chão.
— Cum caraças, que susto! Parecia mesmo que estava a cair — pensou Tizé — vou mas é para a cama!
[Habitualmente quando estamos nos primeiros momentos do sono (Fase 1), pode ocorrer um súbito espasmo muscular, acompanhado da sensação de que estamos a cair. Esta reacção é designada por hipnic myoclonia.
Porque ocorre esta contracção muscular involuntária?
Quando estamos a dormir, o cérebro não se desliga, ao contrário de certos sensos comuns. De facto este encontra-se tão activo como quando no estado de vigília. Mas na transição entre estes dois estados (vigília/sono), ocorrem certas alterações hormonais no nosso cérebro acompanhadas de um “desligar” dos nervos actuantes sobre os músculos (sistema nervoso motor).
Nesta fase inicial de transição entre os dois estados, o cérebro poderá já estar na fase de sono, mas o sistema nervoso motor ainda estar activo. O resultado é a contracção muscular involuntária, que todos conhecemos. Se não ocorrer com demasiado frequência, não incorre em nenhum risco para a saúde.]
Assim, Tizé desliga a televisão, vai fechar à chave a porta de saída e dirige-se para o seu quarto.
Mas ao passar na cozinha, acaba ainda por beber um copo de água, deixando a garrafa em cima da bancada da cozinha.
São agora 00:15 h, e tizé está já a dormir na sua cama.
[Tizé entra assim na fase 1 do sono. Esta é a fase de sono muito leve, em que a pessoa pode ser acordada facilmente. A actividade muscular e a respiração começam a relaxar, e os nossos movimentos oculares são muito lentos.
Seguidamente entramos na fase 2, que é considerada a entrada “oficial” no estado de sono. Nesta fase param todos os movimentos oculares, e as ondas cerebrais (flutuações da actividade eléctrica do nosso cérebro) tornam-se agora mais lentas, relativamente às ondas rápidas (alfa) do estado de vigília.
Esta é a fase do sono, onde passamos muito do nosso tempo de sono durante a noite.
Quando entramos na fase 3, surgem as ondas cerebrais muito lentas (ondas delta) intercaladas com ondas rápidas. Posteriormente surge a fase 4, onde ocorrem exclusivamente as ondas cerebrais delta.
Em ambas estas fases não existe movimento muscular e ocular.
Devido a isso as fases 3 e 4 são consideradas fases de sono profundo, das quais é muito difícil acordar uma pessoa. Inclusivamente se acordada durante estes períodos, mostrará desonrientação espacial e cognitiva.]
Passaram 70 minutos desde que Tizé adormeceu, sendo agora 01:25 h. Após uns minutos, Tizé começa a esbraçejar durante o sono, simulando a movimentação de peças enquanto joga Damas.
[Tizé entrou na fase REM (Rapid Eye Movement – movimento ocular rápido). Esta fase é considerada uma fase irregular do sono. Nesta fase a respiração é rápida e superficial. Os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea sobem e, tal como o nome indica, ocorrem rápidos movimentos oculares em várias direcções. Além disso, ocorre uma paralização temporária do nosso sistema muscular.
Então como pode o Tizé esbraçejar durante esta fase do sono?
Muito raramente podem ocorrer ”erros” no complexo sistema hormonal, e não ocorre a dessensibilização do sistema nervoso motor. Assim o Tizé acaba por “actuar” sobre o seu sonho (está a jogar Damas com o Zarolho). Os sonhos são outra característica desta fase REM.
Quando ocorre de forma algo recorrente, pode-se considerar que a pessoa sofre de sonanbulismo.]

Entre as suas movimentações, nota-se que Tizé tenta cobrir-se totalmente, apresentando claros indícios de sentir frio.
[Porque apresenta agora frio o Tizé, se a temperatura não desceu desde que ele adormeceu?
Outro dos factores desta fase REM, é a incapidade do organismo em manter a sua regulação térmica. Assim, para manter a temperatura corporal, necessita de dimiuir as trocas de calor com o meio externo, ou seja, cobrir-se.]
O relógio electrónico da sua mesa de cabeceira, mostra agora que são 01:35.
[Tizé alcançou um ciclo completo de sono. Cada um destes ciclos completos demora em média, entre 90 a 110 minutos, ocorrendo normalmente 5 a 6 destes por noite.
Com o decorrer das horas, surgem variações tanto na sequência das fases como na duração de cada uma destas, dentro de um ciclo. Por exemplo, a fase REM vai aumentando de duração ao longo da noite, enquanto as fases de sono profundo vão diminuindo (ver figura).]

Variações típicas de ciclos de sono ao longo da noite
São agora 04:30 h e Tizé ressona profundamente.
[O tipíco ressonar ocorre devido a uma obstrução parcial das vias aéreas, provocada pelo palato e pela úvula (saliência do véu palatino ao fundo da cavidade bocal). Estes orgãos vibram durante a respiração, produzindo um som característico: o ressonar!
Este acto não representa uma ameaça à saúde, mas apenas ao descanso de quem o ouve.
No entanto quando este ressonar é demasiado frequente e constante, pode indicar uma desordem do sono conhecida por apneia.
Apneia (sem respiração) de sono, representa um bloquear total temporário das vias aéreas, que obriga a pessoa a acordar (mesmo que não se aperceba) para activar os músculos da garganta reabrindo assim as vias aéreas. Existem vários tipos de apneia de sono.]
São agora 08:30 e toca o despertador na mesa de cabeceira. Tizé num rápido e preciso movimento de braços, pressiona um botão específico e … a calma retoma ao quarto.
Pelas 10:30 da manhã, Tizé finalmente acorda e olha para o relógio:
— Eh pá! Já são dez e meia? Não me lembro nada de o despertador ter tocado! — pensa o Tizé
[Recorrentemente quando estamos em fases levess do sono (quando tocou o despertador, Tizé estava já na fase 1 do seu ciclo de sono), e realizamos uma qulaquer acção, abandonando de seguida o estado de vigília, não nos recordamos das acções realizadas. Isto é designado por amnésia de sono.]
De seguida, Tizé abandona o quarto e vai até à cozinha beber um copo de água e repara que tem a garrafa, não no frigorífico mas sim em cima do balcão.
— Que raio, também não me lembro de deixar aqui a garrafa! — pensa o Tizé
— Esta noite não dormi nada descansado. Quando era novo é que dormia! Pois…dormia como um bébe ! — pensou ele enquanto sorria para si próprio, bebendo o seu copo de água.
[Ao longo da vida, os nossos ciclos de sono também se vão alterando. Não é verdade que com a idade não precisemos de dormir tanto como na infância, como se diz habitualmente. O que acontece é que com a idade aumenta a duração das fases leves de sono (1 e 2), e os mais idosos tendem a entra e sair do sono muito mais frequentemente durante a noite]
— Isto do sono, é uma coisa muito esquisita. Para que raio precisamos de dormir? — pensa o Tizé
E continua o seu monólogo:
— Já sei o que vou escrever no meu caderno hoje.
Não tendo nada marcado para aquela manhã, decide resolver a questão logo ali. Liga o computador que o filho lhe ofereceu e instalou na sala.
Enquanto o computador arranca, vai lavar os dentes e a cara.
Passados uns minutos volta à sala, e faz o que o filho lhe ensinou. Pressiona no ícone “Internet Explorer” e escreve “Para que serve o sono?”.
Mas nenhum resultado que obteve o satisfez, (tal como o filho o tinha avisado), mas após várias pesquisas obtém o resultado pretendido, quando passa a usar a língua inglesa (que aprendeu quando esteve imigrado em Inglaterra entre os anos de 1974 e 1989).
Assim, copia para o seu caderno:
“Dormir não é uma perda de tempo. Apesar de os investigadores não saberem exactamente porque precisamos de dormir, existem duas teorias básicas:
Reconstituinte: dormir permite ao corpo e à mente rejuvenescer, reenergizar e restaurar. Enquanto uma pessoa dorme, pensa-se que o cérebro realiza operações vitais, (…) como a organização de memórias de longo termo, integração de novas informações (…)”.
(http://www.talkaboutsleep.com/sleep-disorders/archives/intro.htm)
E assim deixamos Tizé a escrever no seu carderno, e a pensar sobre o sono!
